quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

FELIZ ANO BOM

Ninguém é obrigado a ser derrotado.

São os limites da consciência que precisam ser dissolvidos. Neste silêncio, pensamentos podem ceder por um tempo, nada pode haver a não ser uma grande liberdade e amplidão sem limites.

Mas para dentro deste silêncio, desta amplidão vazia desce a vasta paz de cima, luz, alegria, conhecimento, a Consciência mais alta na qual se sente a unicidade do Divino. É o começo da transformação.


É preciso encontrar nas profundezas de seu ser aquilo que contém em si um sentido de universalidade, de expansão sem limites, de duração sem interrupção. Então você se descentraliza, se espalha.


Concentrar-se principalmente no seu próprio crescimento e experiência espiritual é a primeira condição para um buscador - ser ávido em ajudar aos outros provoca o desvio do trabalho interno.


Quase ninguém é forte o suficiente para superar, por sua aspiração e vontade não ajudadas, as forças da natureza mais baixa; mesmo aqueles que o fazem, conseguem somente uma certa espécie de controle mas não um domínio completo.

Vontade e aspiração, portanto, são necessárias para trazer para nós a ajuda da Força Divina e para manter o ser do lado dela quando lida com os poderes mais baixos.


Não importa que defeitos você possa ter em sua natureza. A única coisa que importa é você se manter aberto à Força.


Ninguém pode se transformar por seus próprios esforços sem qualquer ajuda; é através da Força Divina que você se transforma. Se você se mantém aberto, todo o resto será feito por você.


O Poder Superior não joga dados com o Universo.

Se você não tem Boa Sorte agora, talvez seja porque está sob as circunstâncias de sempre. Para que ela chegue, é conveniente criar novas circunstâncias.

Se você deixar para amanhã o trabalho que precisa ser feito, a Boa Sorte talvez nunca chegue. Criar as condições favoráveis requer dar um primeiro passo. Faça isso neste Novo Ano.


PARA TODOS, BOAS FESTAS E FELICIDADES EM 2008!

Frases: Sri Aurobindo, Mira Alfassa e Fernando Trias de Bes

domingo, 25 de novembro de 2007

Amor Moderno

Esta matéria é interessantíssima. Um tapa na minha cara deslavada, eu, moderno e complexo, tão dono de mim e tão pouco do terrítório de meu nariz italiano. Por isso a transcrevo, expressando minha concordância e ao mesmo tempo, minha repulsa. Ainda vou me decidir por um sentimento só, equalizar.

Amor moderno: meu orgulho atropelado pelo amor
De Margaret Meehan
The New York Times

Aos 23 anos, eu tinha me apaixonado por cigarros, suflê de chocolate, meu gato e (pela TV) James Franco em "Freaks and Geeks". Mas ainda não tinha experimentado um verdadeiro romance humano.Depois de passar meus anos de colégio nas laterais do amor, eu naturalmente desprezava qualquer um que estivesse dentro do jogo. Então cheguei a Nova York dois anos atrás como uma anti-romântica hipócrita que zombava das idealistas de olhar brilhante, considerava o sexo um ato impensado entre dois imbecis e tinha pena das mulheres que perdiam sua identidade e sua independência ao mergulhar naquele vazio insignificante chamado "amor".
Eu, a anti-romântica, fiquei enlouquecida por esse ele, medíocre mas encantadorSe o Trem do Amor um dia parasse na minha estação, eu pretendia caçoar dos idiotas a bordo, acenando da minha plataforma de solteira auto-suficiente enquanto eles se afastariam e se tornariam um borrão de sentimentalismo no horizonte.

Mas então aconteceu. Numa noite de quinta-feira, enquanto eu entornava vodcas-sodas num bar do East Village, o Trem do Amor achou o caminho do meu coração de gárgula irritada. Freou junto à minha banqueta com um chiado, e ele desceu. Para minha surpresa, eu não apenas o recebi de braços abertos e com uma admiração apaixonada, como passei a sacrificar todo o meu orgulho, amor-próprio e moralidade durante nosso relacionamento de um ano. Tudo em nome do que eu mais detestava: amor!

Ele era absurdamente bonito, quase alienígena com seus lábios grossos, olhos azuis e pele morena. E como naquela virada improvável em todo filme de Molly Ringwald ele se aproximou de mim, uma antissocial. Fiquei cativada e caí presa daquela outra idéia repulsiva reservada aos idiotas: amor à primeira vista. Conversamos sobre Hemingway e Henry Miller, e então nos beijamos apaixonadamente. Depois que ele bateu com a garrafa de cerveja no balcão e declarou "Você vai ser minha namorada!", trocamos telefones.

Nos meses seguintes, sem a permissão de minha lógica ou o bom julgamento do meu intelecto, fiquei enlouquecida por esse músico medíocre mas encantador. Passávamos a noite toda acordados escutando Billie Holiday e Sam Cooke, andamos de mãos dadas a ponto de sentir cãibras pelo parque de Tompkins Square e admirávamos de modo nauseante cada movimento do outro.
Ele rabiscou poemas proclamando sua adoração por meu cabelo, e até por meus dentes, em vários objetos do meu quarto: o retrato de Patti Smith, o manual do meu DVD, uma garrafa de vinho vazia. Tentamos assistir "Antes do Amanhecer" várias vezes, mas sempre tínhamos de parar no meio do discurso meloso de Ethan Hawke, como se estivéssemos ansiosos demais para trocar nossas próprias histórias de traumas de infância, segredos de família e as dores de nossas existências. Ele gravou canções sobre cavalos e poças de lama em um tom country choroso num gravador barato e me deu as fitas como gestos de amor. Eu as escutava sozinha, ignorando a culpa pelo meu passado de insensibilidade e arrulhando como uma pombinha idiota. Agora sentia-me próxima dos românticos franceses do final do século 19. Tinha passado de uma teimosa Holden Caulfield para uma inebriada Baudelaire.

Quando nos conhecemos, ele dormia num colchão de ar no chão da cozinha do apartamento de seu colega de banda, com a intenção de um dia alugar lugar um apartamento. Depois que ele dormiu em minha casa na primeira noite, mudou-se para meu apartamento sem perguntar, e sem eu realmente perceber. Logo senti falta da minha solidão, do conteúdo da minha geladeira e do dinheiro que eu periodicamente lhe emprestava (ele raramente tinha o suficiente para a passagem do metrô). Mas permiti que ele alimentasse seus vícios em minha casa e com meus recursos, desde que me deixasse alimentar o meu vício: ele.

Mas eu conservava sensatez suficiente para forçá-lo (mas não demais) a procurar um lugar para ele. E foi nessa época, em um passeio à tarde pela minha região do Brooklyn, que ele e eu passamos pelo dilapidado Greenpoint Hotel. Parecia bastante inócuo, não muito distante do rio East.

Mas então encontramos uma reportagem de um jornal online afirmando que era um dos estabelecimentos com quartos de solteiro mais usados por prostitutas e viciados em Nova York. E ele decidiu que por US$ 100 por semana o lugar era imbatível. Talvez ele acreditasse que poderia viver seu Kerouac reprimido —o artista torturado juntando-se a um bando de vagabundos depravados para alimentar a produtividade artística.

Minhas reservas aumentaram. Eu não conseguia mais suportar suas excentricidades com humor, dizendo a mim mesma "Ele é tão livre!" ou "É bacana como ele despreza as normas sociais". Mas ainda assim decidi reprimi-las, jogando meus padrões pela janela junto com meu cinismo. O amor provara que eu estava errada: era real e estava lá, suplicando-me para apaziguá-lo por mais deploráveis que fossem as circunstâncias.

Pouco depois de ele mudar para o Greenpoint Hotel, tivemos uma discussão acalorada diante de um bar em Manhattan onde eu tinha comemorado meu 24º aniversário. Para ele, a humilhação de não ter dinheiro suficiente para me pagar uma cerveja superou sua obrigação de ficar e cantar "Parabéns" para mim. Quando ele terminou a única cerveja que podia pagar, saí com ele, chateada porque ele ia embora, mas tentando não ser dramática.Quando ele acendeu um cigarro, eu disse calmamente: "Estou decepcionada porque você vai embora". E ele respondeu: "Então agora você quer me fazer sentir culpado?" E lá se foi.

Na minha mente saqueada pelo amor, aquela criatura maravilhosa não era apenas meu namorado, mas a própria personificação do amor; a abstração antes intangível havia se tornado uma entidade viva e respirante na qual eu podia encostar meu rosto e envolver meus braços. E eu não ia deixá-lo fugir, ainda mais no meu aniversário. Então fiz o que qualquer romântica autodestrutiva faria: corri atrás dele. Em plena Avenue A, de vestido de lantejoulas e sapato de salto, correndo como um animal faminto. E quando meus saltos alcançaram as botas marrons do Amor, eu pretendia subjugá-lo. Mas errei e em vez disso me tornei uma bola de raiva enlouquecida, chutando e gritando na noite enquanto ele se afastava cada vez mais —meu idiota, meu namorado, meu amor.

Depois da minha explosão ele parou de se comunicar comigo, um gesto que só aumentou minha paixão. Pela primeira vez na vida eu senti a dor esmagadora do coração; era como se meus órgãos internos estivessem inchados e pressionassem minhas costelas.

Minhas dores comuns pareciam totalmente originais para mim, quase revolucionárias. Passei uma semana inteira (ou foi o que pareceu) agachada nas esquinas das ruas com as palmas das mãos voltadas para o céu, pensando coisas novas como "Ninguém jamais entenderá" e "Esta é a primeira vez na história que uma dor semelhante é sentida por um ser humano". Em tempos mais felizes, ele havia tocado para mim a canção "Damaged" do Primal Scream, dizendo: "Esta canção me faz amá-la tanto que eu quero morrer". Então eu cantei a letra em sua caixa postal: "Doces dias de verão quando eu me sentia tão bem, só eu e você, garota, que tempo maravilhoso. Oh, sim, eu me sentia tão feliz, minha, minha, minha", com o "minha, minha, minha" final rouco, quase um grito silencioso, para fazê-lo ter ainda mais pena de mim. Então liguei mais 17 vezes, a cada vez adorando ouvir sua voz gravada.

Eu tinha uma última opção: ir até o Greenpoint Hotel. Depois daquela noite terrível de ligações incessantes, acordei às 8h banhada em suor, em um pânico amoroso. Saí do apartamento e fui na minha bicicleta até a porta do cortiço.Ele tinha me mostrado seu minúsculo apartamento uma semana antes (sob a condição de que, para minha própria segurança, eu me escondesse embaixo de um capuz e ficasse ao lado dele), e me lembrei do andar e do número do quarto. Entrei hesitante nos corredores turquesa malcheirosos e percorri um labirinto de corredores, passando por homens mal-encarados e rapazes bebendo cerveja.
Prendi a respiração para evitar o fedor de água sanitária e urina enquanto subia os três andares de escadas cheias de papéis de comida, latas de cerveja, sacos de droga e gatos sem dono. Cheguei até a porta dele, na qual havia a seguinte mensagem, escrita em marcador preto: "Por favor não bata forte, sou cardíaco" (palavras aparentemente escritas pelo último inquilino, um velho que realmente morreu na mesma cama em que meu namorado dormia hoje). Sim, eu estava prestes a suplicar o amor de um homem que dormia na cama de um morto em um quarto de 2,5 x 2,5 metros, de aluguel semanal.

Levantei o punho trêmulo até a porta e bati suavemente três vezes, depois mais alto e mais forte, até que estava esmurrando como uma louca. Finalmente desisti e despenquei junto à porta em um monte de soluços. Então lá estava eu, uma garota com educação universitária e um currículo brilhante, uma família amorosa e todas as outras características incômodas de uma vida maravilhosa, tremendo no chão manchado de urina de um cortiço. E eu fazia tamanha cena que o inquilino do lado, um homem enorme de shorts rasgados, saiu de seu covil, apontou um dedo acusador para mim e gritou: "Garota, você precisa arrumar a sua cabeça". Eu lentamente me recompus e me arrastei para fora do prédio.

E então meu namorado voltou para mim! Por um mês. E aí anunciou que ia me deixar por outra mulher. Eu me agarrei a ele e solucei, ensopando sua camiseta branca com minhas lágrimas, batendo meus punhos em seu peito, suplicando a ele e aos deuses que nos permitissem ficar juntos. Mas de repente parei de chorar e gritei, quase confusa: "Espere. Quem quer realmente namorar você?"

Meu momento de clareza finalmente havia chegado. O que eu estava fazendo?
Alguém poderia pensar que essa experiência me deixaria amarga para o amor e traria de volta, como vingança, minha hostilidade ao romance. Mas não. Pelo contrário, e mais uma vez negando a razão, ainda o quero muito. Ou, mais precisamente, quero aquela sensação que tudo consome.
Sim, sou eu. Antes totalmente cínica em relação ao amor, hoje sou prisioneira dele, ou melhor, uma passageira, tendo encontrado um lugar muito confortável no Trem do Amor, lotado com outros tolos patéticos e soluçantes e prestes a partir para destinos condenados, perturbados e talvez até insalubres —onde o coração manda e a mente obedece.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
UOL

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

O Tigre e a Neve

Este filme facilmente se tornou o meu preferido.

Me tocou como poucos filmes consiguiriam, com tal beleza e espanto, que tenho de transcrever alguns dos ditos com algum senso poético.
A simplicidade e a complexidade da poesia utópica em um só filme.

Destaque para os primeiros 4 minutos do filme. Eles podem ser vistos no Youtube, juntamente com mais informações, através do link:
O Tigre e a Neve


Vittoria, atuação de Nicoleta Braschi

Attilio de Giovanni,
Eu canto teu nome.

Ele me abre as portas do paraíso
Jamais hei de te perder
Queiram os deuses assim.

Quando me beijas
Surgem os Cavaleiros do Apocalipse
E quando penso em teu corpo,
tão difícil e belo,
a vertigem me arrebata.

A tua divindade máscula sobe ao céu
És belo, tú, girassol,
enlouquecido de luz.

Cada vez que teus olhos se erguem,
acende-se o firmamento.

Amigos, eis que a Terra,
como uma mãe,
amamenta sua criatura mais bela.

O amor, tudo está no ápice de seu fervor
Da minha garganta às estrelas,
alça vôo a palavra, qual cometa d'ouro:
Te amo.

Quero fazer amor contigo agora.


Attilio di Giovanni, atuação de Roberto Benigni

Vistam bem seus poemas!
Procurem bem as palavras!
Escolham-nas!
Às vezes, levam-se oito meses para achar uma palavra!
Escolham-nas, pois a beleza começou quando alguém começou a escolher!

Apaixonem-se e tudo vive, tudo se move.
Dilapidem o prazer,
esbanjem alegria,
sejam tristes e taciturnos com exuberância.
Soprem no rosto das pessoas a felicidade.
Para transmitir a felicidade
é preciso estar feliz.
Para transmitir a dor
é preciso estar feliz.
Sejam felizes!
Precisam padecer, ficar mal, sofrer!
Não tenham medo de sofrer,
o mundo inteiro sofre!

E se não tiverem as ferramentas,
não se preocupem.
Afinal, pra fazer poesia,
é preciso apenas uma coisa:
Tudo.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Sobre as diferenças entre Cristianismo e Islamismo

Na cristandade e no islamismo, os conceitos de amor a Deus e amor ao próximo diferem invariavelmente.
Adrian Pabst*

No mês passado, 138 estudiosos muçulmanos dirigiram uma carta aberta ao papa Bento 16 e a outros líderes cristãos em que pedem um novo diálogo entre a cristandade e o islã, com base nos textos sagrados. Intitulado "Uma palavra comum entre nós e vocês", o documento afirma que os princípios comuns dos muçulmanos e cristãos de amar a um só Deus e amar ao próximo oferecem o tipo de terreno comum entre as duas religiões que é necessário para se ter respeito, tolerância e compreensão mútuas.

A publicação dessa carta coincidiu com o aniversário de outra carta aberta em resposta ao polêmico discurso do papa em Regensburg em 12 de setembro de 2006, quando ele pareceu ligar a violência na religião à transcendência absoluta de Deus no islamismo. Sua tese era que, de acordo com os ensinamentos muçulmanos, a vontade de Deus é totalmente inescrutável e, portanto, não pode ser conhecida pela razão humana -com a implicação de que as injunções divinas não podem ser plenamente compreendidas e devem ser obedecidas cegamente.

Contra esse pano de fundo, a última iniciativa dos acadêmicos muçulmanos marca uma tentativa de afastar o diálogo entre as religiões dos debates sobre razão e revelação, em direção a uma leitura escritural. As relações cristãs-muçulmanas, segundo esse argumento, são melhor servidas pelas interpretações textuais que salientam os mandamentos e as crenças comuns.

Mas sugerir, como fazem os autores de "Uma palavra comum", que muçulmanos e cristãos são unidos pelos mesmos dois mandamentos mais essenciais de suas respectivas crenças e práticas -o amor a Deus e o amor ao próximo- é teologicamente dúbio e politicamente perigoso.

Do ponto de vista teológico, isto omite diferenças elementares entre o Deus cristão e o Deus muçulmano. O Deus cristão é um Deus relacional e encarnado. Além disso, o Novo Testamento e os primeiros textos cristãos falam em Deus como uma única divindade com três pessoas igualmente divinas -Pai, Filho e Espírito Santo.

Isso não é meramente um ponto da doutrina, mas algo que tem implicações políticas e sociais significativas. A igualdade das três pessoas divinas é a base da igualdade entre a humanidade -cada ser é criado à imagem e semelhança do Deus triádico.Em conseqüência disso, a cristandade pede uma sociedade radicalmente igualitária, além de quaisquer divisões de raça ou classe. A promessa de igualdade e justiça universais que é encapsulada neste conceito de Deus fornece assim aos cristãos uma maneira de questionar e modificar não apenas as normas da ordem política prevalecente como também as práticas sociais (freqüentemente perversas) da igreja.
Em contraste, o Deus muçulmano é desencarnado e absolutamente uno. Não há Deus além de Deus, ele não tem sócio. Esse Deus é revelado exclusivamente a Maomé, o mensageiro (ou profeta), por meio do arcanjo Gabriel. Como tal, o Corão é a palavra literal de Deus e a revelação divina definitiva, anunciada primeiramente aos hebreus e depois aos cristãos.

Mais uma vez, este relato de Deus tem conseqüências importantes para as relações políticas e sociais. O islamismo não postula simplesmente divisões absolutas entre os que se submetem ao seu credo central e aqueles que o negam; também contém injunções divinas contra os apóstatas e os descrentes (embora proteja os fiéis judeus e cristãos).Além disso, o monoteísmo radical islâmico tende a fundir a esfera religiosa com a política: ele privilegia a autoridade unitária absoluta sobre as instituições intermediárias e também dá ênfase à conquista e ao controle territoriais, sob o comando direto de Deus.

Estas (e outras) diferenças implicam que cristãos e muçulmanos não adoram ou acreditam no mesmo Deus; em conseqüência, nas duas crenças o amor a Deus e o amor ao próximo diferem invariavelmente.

Ao ignorar essas divergências fundamentais, os autores da carta aberta perpetuam mitos sobre cristãos e muçulmanos orarem de maneiras diferentes ao mesmo Deus. Pior, eles exibem uma teologia simplista de monoteísmo absoluto, não-mediado.Dessa maneira, servem inadvertidamente aos extremistas religiosos dos dois lados, que alegam ter um conhecimento imediato, total e conclusivo da vontade divina somente por meio da fé.

O problema de todas as interpretações textuais é que elas são, por definição, particulares e parcialmente subjetivas. Sem conceitos universais e padrões objetivos como a racionalidade, os acadêmicos diferem dos extremistas meramente em termos de suas intenções honrosas.

Por isso o perigo político de enfocar o diálogo cristão-muçulmano na leitura textual é que ela negligencia as especificidades teológicas de cada religião e suas implicações sociais; como tal, essa abordagem mina a compreensão mútua que pretende oferecer mas deixa de produzir.

Cristãos e Muçulmanos não podem mais evitar as diferenças fundamentais que distinguem suas religiões. A melhor esperança de paz e tolerância genuínas entre a cristandade e o islã é ter uma discussão teológica adequada sobre a essência de Deus e a natureza da paz e da justiça. De outro modo, o diálogo entre religiões representará pouco mais que as platitudes gentis de políticos e diplomatas. Em nome do compromisso comum com a verdade e a sabedoria, cristãos e muçulmanos devem ter discussões sólidas que sejam teologicamente informadas e politicamente francas.

É claro que isso não impede a cooperação pragmática entre as religiões sobre questões de interesse comum, como o secularismo agressivo, o ateísmo militante e, mais importante, a violência na religião.Mas os fundamentalistas dos dois lados só serão intelectualmente derrotados e politicamente marginalizados por uma crença arrazoada e uma discussão racional -e não pela interpretação textual subjetiva.*

Adrian Pabst é professor de religião e política na Universidade de Nottingham, Grã-Bretanha, e bolsista de pesquisa no Instituto de Estudos Europeus e Internacionais em Luxemburgo.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Fonte: International Herold Tribune

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Mude

Mude, mas comece devagar,
porque a direção é mais importante que a
velocidade.

Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.

Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho, ande por outras ruas,
calmamente, observando com
atenção os lugares por onde você passa.

Tome outros ônibus.

Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os seus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.
Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia,
ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.

Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama...
Depois, procure dormir em outras camas
Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais... leia outros livros.

Viva outros romances.

Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.

Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.

Corrija a postura.

Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores, novas delícias.

Tente o novo todo dia.
O novo lado, o novo método, o novo sabor,
o novo jeito, o novo prazer, o novo amor.

A nova vida.

Tente.

Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.

Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida,
compre pão em outra padaria.

Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.

Escolha outro mercado... outra marca de sabonete,
outro creme dental...
Tome banho em novos horários.

Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.

Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.

Troque de bolsa, de carteira, de malas,
troque de carro, compre novos
óculos, escreva outras poesias.

Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.

Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros,
outros teatros, visite novos museus.

Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só.
E pense seriamente em arrumar um outro emprego,
uma nova ocupação,
um trabalho mais light, mais prazeroso,
mais digno, mais humano.
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.

Seja criativo.

E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.

Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.

Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores do que as já
conhecidas, mas não é isso o que importa.

O mais importante é a mudança,
o movimento, o dinamismo, a energia.

Só o que está morto não muda !

Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco,
sem o qual a vida não vale a pena !!!

A autoria deste poema está costumeiramente atribuída a Clarice Lispector, mas soube recentemente que (vide cometários), na verdade, o verdadeiro autor é Edson Marques. Interessante que há um trâmite para recuperar o mérito da autoria. Uma empresa chamada Leo Burnett, responsável por propagandas da Fiat, também atribuiu a autoria para Clarice. Liguei lá algumas vezes e ninguém atendeu.
O blog do Edson Marques está em meus recomendados, e lá se pode ter mais informações a respeito disso.

domingo, 14 de outubro de 2007

Armadilhas da Língua

Você sabe o que é tautologia?

É o termo usado para definir um dos vícios de linguagem. Consiste na repetição de uma idéia, de maneira viciada, com palavras diferentes, mas com o mesmo sentido. O exemplo clássico é o famoso "subir para cima" ou o "descer para baixo". Mas há outros, como você pode ver na lista a seguir:

- elo de ligação
- acabamento final
- certeza absoluta
- quantia exata
- nos dias 8, 9 e 10, inclusive
- juntamente com
- expressamente proibido
- em duas metades iguais
- sintomas indicativos
- há anos atrás
- vereador da cidade
- outra alternativa
- detalhes minuciosos
- a razão é porque
- anexo junto à carta
- de sua livre escolha
- superávit positivo
- todos foram unânimes
- conviver junto
- fato real
- encarar de frente
- multidão de pessoas
- amanhecer o dia
- criação nova
- retornar de novo
- empréstimo temporário
- surpresa inesperada
- escolha opcional
- planejar antecipadamente
- abertura inaugural
- continua a permanecer
- a última versão definitiva
- possivelmente poderá ocorrer
- comparecer em pessoa
- gritar bem alto
- propriedade característica
- demasiadamente excessivo
- a seu critério pessoal
- exceder em muito.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Índio sim, com muito orgulho

Uso do pronome MIM como Sujeito de Infinitivos

PARA + MIM + INFINITIVO

- É para mim responder?
- Para mim explicar?


Existem três hipóteses que demonstram a sintaxe ainda considerada não padrão, para buscar explicações científicas.


1) CRUZAMENTO SINTÁTICO

Tentativa de dizer as duas coisas no mesmo enunciado: resumo das informações contidas.

1.João trouxe um monte de livros para mim.
2.João trouxe um monte de livros para eu escolher.
3.João trouxe um monte de livros para mim escolher.

BRAQUILOGIA: Termo técnico que resume duas idéias numa só expressão.


2) GANHA QUEM CHEGAR PRIMEIRO

Norma padrão:


-“Depois de preposição, pronome oblíquo”.
-“Na função de sujeito de um verbo, o pronome deve figurar no caso reto”.
João trouxe um monte de livros para [ ] escolher.

A preposição PARA, por ter chegado primeiro, pôde empurrar para dentro do espaço vago o pronome mim, que ela rege:
João trouxe um monte de livros para mim escolher.


3) DESLOCAMENTOS POSSÍVEIS


Generalização da possibilidade de deslocamento.


1. É muito difícil para mim fazer isso sozinho.

À primeira vista, parece que a frase contém um erro. Retirando o PARA MIM do lugar onde está e deslocando-o ao longo do enunciado, temos:


1a. Para mim é muito difícil fazer isso sozinho.
1b. É para mim muito difícil fazer isso sozinho.
1c. É muito difícil fazer isso sozinho para mim.



Falar diferente não é falar errado.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe? , nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Se Tanta Pena Tenho Merecida

Se tanta pena tenho merecida
Em pago de sofrer tantas durezas,
Provai, Senhora, em mim vossas cruezas,
Que aqui tendes uma alma oferecida.

Nela experimentai, se sois servida,
Desprezos, desfavores e asperezas,
Que mores sofrimentos e firmezas
Sustentarei na guerra desta vida.

Mas contra vosso olhos quais serão?
Forçado é que tudo se lhe renda,
Mas porei por escudo o coração.

Porque, em tão dura e áspera contenda,
ƒÉ bem que, pois não acho defensão,
Com me meter nas lanças me defenda.

Luís de Camões

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Os Idiotas Confessos

Antigamente, o idiota era o idiota. Nenhum ser tão sem mistério e repito: — tão cristalino. O sujeito o identificava, a olho nu, no meio de milhões. E mais: — o primeiro a identificar-se como tal era o próprio idiota. Não sei se me entendem. Pois o idiota era o primeiro a saber-se idiota. Não tinha nenhuma ilusão.

E uma das cenas mais fortes que vi, em toda a minha infância, foi a de uma autoflagelação. Um vizinho berrava, atirando rútilas patadas: — “Eu sou um quadrúpede!”. Nenhuma objeção. E, então, insistia, heróico: — “Sou um quadrúpede de 28 patas!”. Não precisara beber para essa extroversão triunfal. Era um límpido, translúcido idiota.

E o imbecil como tal se comportava. Nascia numa família também de imbecis. Nem os avós, nem os pais, nem os tios, eram piores ou melhores. E, como todos eram idiotas, ninguém pensava. Tinha-se como certo que só uma pequena e seletíssima elite podia pensar. A vida política estava reservada aos “melhores”. Só os “melhores”, repito, só os “melhores” ousavam o gesto político, o ato político, o pensamento político, a decisão política, o crime político.

Por saber-se idiota, o sujeito babava na gravata de humildade. Na rua, deslizava, rente à parede, envergonhado da própria inépcia e da própria burrice. Não passava do quarto ano primário. E quando cruzava com um dos “melhores”, só faltava lamber-lhe as botas como uma cadelinha amestrada. Nunca, nunca o idiota ousaria ler, aprender, estudar, além de limites ferozes. No romance, ia até ao Maria, a desgraçada.

Vejam bem: — o imbecil não se envergonhava de o ser. Havia plena acomodação entre ele e sua insignificância. E admitia que só os “melhores” podem pensar, agir, decidir. Pois bem. O mundo foi assim, até outro dia. Há coisa de três ou quatro anos, uma telefonista aposentada me dizia: — “Eu não tenho o intelectual muito desenvolvido”. Não era queixa, era uma constatação. Santa senhora! Foi talvez a última idiota confessa do nosso tempo.

De repente, os idiotas descobriram que são em maior número. Sempre foram em maior número e não percebiam o óbvio ululante. E mais descobriram: — a vergonhosa inferioridade numérica dos “melhores”. Para um “gênio”, 800 mil, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de cretinos. E, certo dia, um idiota resolveu testar o poder numérico: — trepou num caixote e fez um discurso. Logo se improvisou uma multidão. O orador teve a solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.

Se o orador fosse Cristo, ou Buda, ou Maomé, não teria a audiência de um vira-lata, de um gato vadio. Teríamos de ser cada um de nós um pequeno Cristo, um pequeno Buda, um pequeno Maomé. Outrora, os imbecis faziam platéia para os “superiores”. Hoje, não. Hoje, só há platéia para o idiota. É preciso ser idiota indubitável para se ter emprego, salários, atuação, influência, amantes, carros, jóias etc. etc.

Quanto aos “melhores”, ou mudam, e imitam os cretinos, ou não sobrevivem. O inglês Wells, que tinha, em todos os seus escritos, uma pose profética, só não previu a “invasão dos idiotas”. E, de fato, eles explodem por toda parte: são professores, sociólogos, poetas, magistrados, cineastas, industriais. O dinheiro, a fé, a ciência, as artes, a tecnologia, a moral, tudo, tudo está nas mãos dos patetas.

E, então, os valores da vida começaram a apodrecer. Sim, estão apodrecendo nas nossas barbas espantadíssimas.

Esta adaptação do Nelson Rodrigues é uma homenagem a uma idiotice, a um idiota confesso que conhecí.

O pleno idiota é aquele que projeta seu caráter imundo no próximo, como se, narcisicamente, ele de fato o refletisse. Ideal seria ver seu próprio rosto refletido na água de um pântano, seria uma maneira inevitável de lidar com sua verdadeira imagem, ao invés de procurá-la nos demais.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Confiar na Estabilização Mental

Já fizeste isso comigo muitas vezes no passado
E, como resultado, sofrí por muito tempo;
Mas agora que reavivei todo o meu rancor por ti,
Estou determinado a te destruir, ó mente egoísta.
...

Quer cuide dele da maneira que faço
Quer o deixe ser ferido pelos outros.
O corpo, ele próprio, não desenvolve nem apego nem raiva;
Então, porque me sinto tão apegado a ele?

Já que o corpo, ele próprio, não conhece
Raiva quando insultado
Nem apego quando elogiado,
Porque enfrento tantos transtornos em seu nome?

"Mas quero cuidar desse corpo
Porque ele é muito benéfico para mim".
Então, porque não apreciar todos os seres vivos,
Uma vez que eles são muito mais benéficos para nós?

Portanto, sem nenhum apego,
Vou abrir mão do meu corpo para o benefício de todos;
Todavia, apesar do corpo ter muitos defeitos,
Cuidarei dele enquanto trabalho para os outros.

Vou por um fim a todas as criancices
E seguir os passos dos sábios Bodissatvas.
Lembrando-me das instruções sobre conscienciosidade,
Vou me afastar do sono, da obtusidade mental e de outros estados afins.

Como os compassivos filhos e filhas do Conquistador Buda,
Vou dedicar-me com paciência a tudo o que deve ser feito.
Se não aplicar esforço constante ao longo do dia e da noite,
Quando minha desgraça chegará ao fim?

Portanto, para dissipar ambas as obstruções
Vou afastar minha mente de todas as concepções distrativas
E posicioná-la em constante equilíbrio medidativo,
No perfeito objeto de meditação, a visão correta da vacuidade.

Guia do Estilo de Vida do Bodissatva.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Incliner Sans Necessiter

Quem fale e reflita acerca de uma coisa má que haja praticado, está pensando na baixeza perpetrada, e quem pense fica preso aí - com a alma inteira a pessoa fica presa completamente àquilo em que pensa, e por isso fica presa à baixeza. E por certo não será capaz de mudar, pois seu espírito endurecerá e seu coração apoderecerá, e além disso um ânimo triste pode apoderar-se dela.

O que faria você? Remexa na imundície deste jeito e daquele, e ela continua a ser imundície. Ter pecado ou não ter pecado - de que nos adianta isso no céu? Durante o tempo em que estou matutando sobre isso eu poderia estar enfiando pérolas para alegria do céu. Por isso é que está escrito: "Afaste-se do mal e faça o bem" - afaste-se completamente do mal, não fique ruminando dessa maneira, e pratique o bem. Então compense isso agindo bem.

Time and Eternity, N.N.Glatzer.


Isto está dentro do mesmo espírito que a palavra chatah do antigo Testamento, comumente traduzida por pecado, mas de fato significa "perder, ou errar (o caminho)"; falta-lhe a qualidade de condenação que as palavras "pecado" e "pecador" tem. Analogamente, a palavra hebraica para arrependido é teschubah, significando "voltar" (para Deus, para si mesmo, para o caminho certo), e a ela também falta a implicação de autocondenação. Assim, o Talmude emprega a expressão "o mestre da volta" ("o pecador arrependido") e diz dele que paira acima até dos que nunca pecaram.

domingo, 5 de agosto de 2007

Nós e O Absoluto

Pelágio (350-425) era um monge bretão, dotado, segundo consta, de muita força de vontade e profundo senso do dever, eloqüente e autodidata em teologia. Quando chegou em Roma, começou a criticar a estupidez e hipocrisia de muitos cristãos.

No século V, Pelágio havia debatido ferozmente com Agostinho sobre este assunto. Agostinho mantinha que o pecado original de Adão foi herdado por toda a humanidade e que, mesmo que o homem caído retenha a habilidade para escolher, ele está escravizado ao pecado e pecará.
Por outro lado, Pelágio insistia que o pecado original afetara apenas a Adão, e que se Deus exige das pessoas que vivam vidas perfeitas, Ele também dá a competência ou habilidade moral para que elas possam fazer assim. Ele reivindicou mais adiante que a graça divina era desnecessária para salvação, embora facilitasse a obediência.

Tendo como findamentos a absoluta liberdade e auto-suficiência do homem, Pelágio redecora a problemática da justiça infinita de Deus: Deus é justo e não pode impor-nos algo que supere nossas forças, e não pode dar a alguém um auxílio maior que a outrem.

Agostinho teve sucesso refutando Pelágio, mas o pelagianismo não morreu, mesmo considerado heresia por muitos concílios católicos, teóricos e burocráticos da fé.

Com irresistível charme, várias formas de pelagianismo recorreram periodicamente através dos séculos. Lutero escreveu um livro "A Escravidão da Vontade" em resposta a uma diatribe de Erasmo, onde o mesmo defendia conceitos pelagianos. Lutero acreditava que Erasmo era "um inimigo de Deus e da religião Cristã" por causa do ensino dele sobre o pecado original. É bom notar que o Catolicismo medieval, sob a influência de Aquino, adotara um semi-pelagianismo, mesmo que na antigüidade houvesse rejeitado o pelagianismo puro. Neste sistema, acreditava-se que o homem cooperava com a graça de Deus para a salvação.

No século XVIII, uma forma nova e levemente modificada de pelagianismo, apareceu, que foi o arminianismo. Existem algumas diferenças entre as duas posições, mas ambas são sinergistas (o homem coopera para sua salvação) e mantém o mesmo conceito de fé (uma decisão puramente humana de receber a Jesus Cristo, e não como um dom misericordioso de Deus).

O Niilismo acredita a existência humana desprovida de qualquer sentido. Nesta linha, a base do problema residirá na vontade, em seu direcionamento. Se onde há vida há vontade de poder, o mesmo não pode ser dito da vontade como afirmação da vida. Há o efeito negativo, mas isto não indica, contudo, que a vida não possua seus atrativos. Para Nietzsche, o fim último do niilismo está no momento em que o homem nega os valores de Deus, deve aprender a ver-se como criador de valores e no momento em que entende que não há nada de eterno após a vida, deve aprender a ver a vida como um eterno retorno. Como no “Zaratustra”, onde o jovem pastor elimina a serpente, deve agir o homem. Deve abrir-se ao devir e ao tempo. Deve transformar a vida em uma experiência de criação e destruição. Filosoficamente espantador e ambíguo.

Ao meu ver, o niilismo não é sinônimo de um melindre sobre a postulação de Pelágio, mas muitas vezes poderá representar sua metáfora acerca de um desperdício de forças, e ainda um risco da exaltação humana, ou seu obscurantismo. Hipóteses de um encadeamento que me ocorreu agora.

Antes que eu misture demais os princípios, temos o perspicaz Hegel. Vejamos um exemplo muito célebre da dialética hegeliana. Trata-se de um episódio dialético tirado da Fenomenologia do Espírito, o do senhor e o escravo.

Dois homens lutam entre si. Um deles é pleno de coragem. Aceita arriscar sua vida no combate, mostrando assim que é um homem livre, superior à sua vida. O outro, que não ousa arriscar a vida, é vencido. O vencedor não mata o prisioneiro, ao contrário, conserva-o cuidadosamente como testemunha e espelho de sua vitória. Tal é o escravo, o "servus", aquele que, ao pé da letra, foi conservado.

a) O senhor obriga o escravo, ao passo que ele próprio goza os prazeres da vida. O senhor não cultiva seu jardim, não faz cozer seus alimentos, não acende seu fogo: ele tem o escravo para isso. O senhor não conhece mais os rigores do mundo material, uma vez que interpôs um escravo entre ele e o mundo. O senhor, porque lê o reconhecimento de sua superioridade no olhar submisso de seu escravo, é livre, ao passo que este último se vê despojado dos frutos de seu trabalho, numa situação de submissão absoluta.
b) Entretanto, essa situação vai se transformar dialeticamente porque a posição do senhor abriga uma contradição interna: o senhor só o é em função da existência do escravo, que condiciona a sua. O senhor só o é porque é reconhecido como tal pela consciência do escravo e também porque vive do trabalho desse escravo. Nesse sentido, ele é uma espécie de escravo de seu escravo.

c) De fato, o escravo, que era mais ainda o escravo da vida do que o escravo de seu senhor (foi por medo de morrer que se submeteu), vai encontrar uma nova forma de liberdade. Colocado numa situação infeliz em que só conhece provações, aprende a se afastar de todos os eventos exteriores, a libertar-se de tudo o que o oprime, desenvolvendo uma consciência pessoal. Mas, sobretudo, o escravo incessantemente ocupado com o trabalho, aprende a vencer a natureza ao utilizar as leis da matéria e recupera uma certa forma de liberdade (o domínio da natureza) por intermédio de seu trabalho. Por uma conversão dialética exemplar, o trabalho servil devolve-lhe a liberdade. Desse modo, o escravo, transformado pelas provações e pelo próprio trabalho, ensina a seu senhor a verdadeira liberdade que é o domínio de si mesmo. Assim, a liberdade estóica se apresenta a Hegel como a reconciliação entre o domínio e a servidão.

É possível porque Hegel concebe um processo racional original - o processo dialético - no qual a contradição não mais é o que deve ser evitado a qualquer preço, mas, ao contrário, se transforma no próprio motor do pensamento, ao mesmo tempo em que é o motor da história, já que esta última não é senão o Pensamento que se realiza.

É preciso compreender também que a história é um progresso. O vir-a-ser de muitas peripécias não é senão a história do Espírito universal que se desenvolve e se realiza por etapas sucessivas para atingir, no final, a plena posse, a plena consciência de si mesmo. "O absoluto, diz Hegel, só no final será o que ele é na realidade". O panteísmo de Spinoza identificava Deus com a natureza: Deus sive natura. O panteísmo hegeliano identifica Deus com a História. Deus não é o que é - ao menos só é parcial e muito provisoriamente o que atualmente é - Deus é o que se realizará na História. (Neste sentido, ainda há algo de hegeliano na filosofia de Teilhard de Chardin). Por conseguinte, a história, para Hegel, é uma odisséia do "Espírito Universal".

Muito bem, Hegel!

Se Deus é uma idéia que transcende a própria idéia e o pensamento, se é infinito algo, amor ou seja lá o que definamos em nossa ânsia pela razão Dele, este infinito é potencialmente mutável para ser infinito ou continuamente maior. Obrigado.

O relevante mesmo não é perambular entre os limites do agir e não agir, pecado e positivismo. É caminhar, saltar, ou até mesmo tropeçar. Trata-se de outro axioma.

Para quem ainda quer mais, com uma linguagem bem acessível, sugiro clicar: http://www2.uol.com.br/bibliaworld/igreja/estudos/doutr002.htm

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Hipocrisia Virtual

O que acontece quando a gente bloqueia alguém no msn?

Vou te contar o que aprendi até pra difundir essa infernização com os falsos amigos.

Ora, quando você bloqueia alguém é como se estivesse se escondendo dela. Você vai saber que ela está ON line, mas ela verá você como OFF o tempo inteiro.

Quando você a exclui é como se quisesse dar um tapa na cara da pessoa.

Quando uma pessoa bloqueia a outra ou exclui ela pode ser descoberta por um delicioso acaso. Imagine que quem você excluiu tem um contato em comum com outra pessoa de sua lista, e sentindo tua ausência ela pergunta para o outro fulano se tem te visto.
- Sim tenho, ela tá on line agora, por que???

Que chato hein...

Ainda pelo propio MSN tem uma função para descobrir gente que te bloqueou:
ferramentas
opções
privacidade

Você terá duas colunas: a de pessoas que voce tem no seu msn e a de pessoas que você bloqueou ou excluiu.
Você pode ir clicando nos nicks da lista do seu lado esquerdo, com o botão direito do mouse.
O que tiver a opção excluir mais escuro indica que a pessoa te bloqueou!

Decepcionante...

Outra é usar sites que fazem esse serviço. Sim, sim!
http://www.blockstatus.com/
http://msn.blocked.nl/

Há outras maneiras, basta viajar com a Helmanns. Talvez ir na casa da pessoa e olhar o pc dela para ver se ela está on line. Claro que perdida a confiança esta pessoa já não é mais sua amiga mesmo, mas outras opções existem.

A mais digna, penso, é aquela em que você conversa com a pessoa o mínimo necessário, e expõe qualquer descontentamento ou impossibilidade de diálogo.

Essa história de chat ou msn ou gtalk, é complexa. Eu advirto estar ocupado, mas posso não estar tão ocupado para falar com os preferidos. Coloco que estou em ligação, mas posso estar com as mãos livres para digitar, e hoje em "desdia" as pessoas dizem que podem fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Quando coloco estar ausente, posso estar defronte ao pc sem estar falando por algum tempo, ou assistindo tv na sala, o que não impede me escreverem alguma coisa, e a regra de ouro impõe ter de responder algo assim que puder.

Assim que puder.

E como saber a extensão de um carinho, de uma impossibilidade momentânea? Como certificar-se de que seus amigos, ou mesmo parentes, estão acompanhando tuas mudanças, aprovando teus atos noticiados? Como expor seu descontentamento? Com uma atitude antidialógica?

A amizade ideal, do que se tem melhor notícia, é exatamente aquela que respeita o indivíduo. Quando eu percebo que uma pessoa pode não estar de bom humor, devo compreendê-la. É direito dela tal quel é meu direito estar de mau humor de vez em quando, ou sempre, o que é então uma opção. Neste caso, ranzinzas não costumam ser bons amigos, costumam ser críticos negativos, distantes da potencialidade humana, mesmo quando atraentes de algum modo. A conclusão é que são dispensáveis mau-amados insimesmados em si mesmos, que precisam de limitação comunicacional exatamente para não se tornarem esquizofrênicos. Será um bem duplo afastá-los de você.

Sim, todos temos direito à privacidade. Sim, podemos falar com quem quisermos, na hora que bem entendermos ou pudermos. Sim.

Todos tem esse direito, a sacada é que isto não é unilateral.

A primeira pergunta correta seria: a hipocrisia é um direito?
A segunda pergunta correta É: pra que eu adicionei aquela pessoa?

Não há mal nenhum em sermos sinceros quanto ao grau de envolvimento com uma pessoa que acabamos de conhecer, ou que então já é de nosso círculo. Inclusive, algumas versões são socialmente aceitas, e ademais, não somos obrigados a ter tempo sempre pra ficar conversando.


Os outros também tem um dever, o de compreender que não estamos à disposição assim tão abertamente. Algo do tipo "não posso conversar agora" tem de ser compreendido, e vivenciado mesmo que se extenda por tempo indeterminado. Ou aceite que pode estar enganado a respeito do seu amigo.

Dependa menos do seu contato sempre ocupado, desvincule-se. Ou perdoe a displicência se puder.

Enfim, opte por ter valores positivos, ao invés de picuinhas. E com mente aberta, exija reciprocidade. Isto vai configurar um ambiente virtual em que não precisará se esquivar de seus contatos.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Pode Alguém Dar Mais do que Possui?

Ó Deus Altíssimo!
Três coisas eu Te dei:
Amor, lealdade e esforço;
E nisso eu não falhei.

Porém, ó Bem-Amado,
Quantos pecados se entramaram
Em meus esforços!
Quanta indignidade mesclada
Em cada átomo de meu amor!
Que pobre a lealdade
Dada com toda afeição que eu tinha!

Mas, pode alguém dar mais
Do que aquilo que possui?
Cada flor desabrocha
Conforme sua natureza;
Cada lâmpada brilha
Sua própria medida de óleo.

Ah, fosse eu de melhor natureza
E o tesouro à Tua porta
Seria de jóias com brilho de estrelas!
Como uma criança que brinca
Ao lado da vastidão do oceano
E reúne suas conchas e seixos —
Sua pequena loja —
No encontro das ondas com a praia,
E traz esse brinde de bugigangas
Para o colo de sua mãe,
Assim eu trouxe a Ti
Tudo o que eu tinha!

Ó Deus aceita-o
Em Tua graça.
Perdoa Tua filha
E toma-a nos Teus braços!

AMATU'L-BAHÁ RÚHÍYYIH KHANUM