quinta-feira, 28 de junho de 2007

Dupla Cidadania: Paixão e Desafeto

A xenofobia é sempre uma forma de negação do Outro. O Outro é visto como uma ameaça ou a razão de todos os males, por isso deve ser aniquilado.

É isto que o Consulado Espanhol em "San Pablo" anuncia, ao seu ulterior brado e tom, com curioso e sabotador encantamento. Trata-se de uma projeção no visitante ou duplo cidadão, desmerecido em sua requisição de cidadania.

Oficializar à Casa Real tal percepção, pareceria um absurdo e uma afronta risível, contrariamente risível à afronta que muitas vezes se recebe destes espanhóis, funcionários públicos da estirpe brasileira, pouco representativos da acidez ingênua e simplória de Províncias como Galicia. Objetividade e autoridade se tornam meras distrações para jogos de poderes, apoiados no princípio de que um Consulado é um território estrangeiro dentro de outro país.

Aquilo que em toda a Europa se denomina de "arrogância" espanhola é um dos seus traços culturais matriciais e matriarcais. O espanhol típico olha o outro como um toureiro encara um "touro": uma ameaça que deverá ser consumada. O Outro é sentido como uma ameaça à sua própria existência. Daqui advém a recusa em aceitar o diálogo e o constante apelo à força ou à agressão despropositada. A única forma que frequentemente chegam a conceber para aceitar o Outro é "matando-o" alegoricamente.

O povo espanhol, o castelhano em particular, ao longo da história parece ter alguma dificuldade em aceitar a diversidade ou as diferenças culturais. A matriz cultural da Espanha forjou-se a partir da aniquilação dos vários reinos ibéricos. Foi este modelo que acabaram por exportar para as Américas, aliás uma Lógica Inquisitorial noutro tempo.

Sim, é provavelmente um retrato excessivo, como é a generalização, mas o pior dos erros face à iminente barbárie é justamente a indiferença.

Na Catalunha, por reação contra a intolerância espanhola, acabou por desenvolver-se um expressivo movimento anarquista. A Catalunha continua a afirmar-se marginalizada pelo Estado Espanhol, lutando por todos os meios contra a sua asfixia cultural.

No País Basco, luta-se também há séculos contra tal opressão. A repressão da população atingiu tais proporções que nos anos 60 surgiu um movimento armado contra o Estado Espanhol. A população continua a viver nesta região, sob um clima de verdadeiro terror, quer provocado pelo Estado Espanhol, quer pelas ações armadas dos nacionalistas viventes da metáfora que pretendem ignorar.

Na Galicia, terra de Francisco Franco, mas também de Rosália de Castro, desenvolve-se um ambíguo movimento autonomista que luta pela manutenção das tradições galegas e o que resta da sua expressão linguística.

Brilhantes e eficazes tentativas de impedir que se cumpra o grande desígnio dos antigos inquisidores espanhóis, o de subjugarem todos os homens a um mesmo Deus, Igreja ou Chefe. Evitar em suma o triunfo desta curiosa expressão pervertida.

Diz um velho ditado português que "De Espanha nem bom vento, nem bom casamento". Embora isto seja um exagero, demonstra uma evidente necessidade de aperfeiçoamento da sociedade espanhola, para que realmente se veja refletida positivamente na imagem que pretende conceber, vívida.

Almodóvar, e certamente tantos desconhecidos, são desprendidos encorajadores. Sorte de que a intrepidez seja, por outro lado, uma bem-aventurança espanhola.

domingo, 24 de junho de 2007

A Torre de Luz (Defesa Psíquica)

1. Visualize imediatamente o elipse áurico de um azul brilhante e intenso ao seu redor, e dentro de seu ápice, bem acima de sua cabeça, a brilhante esfera branca de luz do seu Ser Superior.

2. Consciente do globo brilhante acima de sua cabeça, peça ao Bem Supremo a capacidade de compreender; embora este globo seja um símbolo visualizado, entenda que ele representa uma parte da Força Divina.

3. Veja esa fascinante esfera enviando para baixo uma brilhante luz branca. Esta luz, cheia de faíscas prateadas, inunda sua aura e, ao mesmo tempo, permeia você completamente, caminhando com intensas vibrações através de seu corpo. Veja o contorno azul forte da dura concha protetora de sua aura.

4. Mantenha essa visualização o tempo que for necessário ou o quanto você realmente se sentir capaz.


Quando você deixar a imagem desaparecer de sua consciência, saiba que a Realidade dessa Proteção ainda continua invisível ao seu redor.
Nos momentos de puro perigo psíquico, este método certamente funcionará para você.

sábado, 16 de junho de 2007

Diferente Oração, Semelhante Foco

Ao pronunciar palavras de transcedência em voz alta, você lhes confere vida.


Toda a verdadeira oração logra certa intimidade capaz de nos influenciar amplamente. A comunhão que nos oferece é o âmago da comunicação real e da humanização.

Tradução do Pai Nosso Original de Jesus Cristo*

"Pai, sopro que emana a vida. Aquele que enche o mundo de luz e som.
Que a Vossa luz nos ilumine e mostre o caminho sagrado.
Vosso reino celestial se aproxima.
Seja feita a Vossa vontade em nossos atos, no Céu e na terra.
Dai-nos sabedoria para nossas necessidades de cada dia.
Afrouxai as amarras que nos prendem e livrai-nos da culpa alheia.
Não deixai-nos cair na tentação das coisas superficiais.
Nos libertai do que nos afasta da verdadeira razão.
De Vós vem toda a força que nos move, a música que nos glorifica e nos renova a todo tempo.
Amém (Selado pela Confiança, Fé e Verdade)."

Algumas rogam a Alá, Deus, Buda ou Krishna, mas decerto todas rogam alguma coisa de nós. E evocar nossa face Criadora é religar-se à tradição oral da poesia e do cântico, da parábola e da canção.

Oração de David Sluyter, homem comum:

Acordei para a confusão de um novo dia
Os fragmentos de sonhos, as lembranças de ontem e novos desejos se arrastando na consciência,
O sol derramando sua luz por todas as coisas exceto pelas sombras e pela cacofonia do som
De fora e dentro
O que tomar por lei? O que esquecer?
Quem faz a opção?
Acho que vou-me pôr às margens do rio, só para vê-lo fluir,
Já faz muito tempo que fiz algo verdadeiramente importante."

Na oração encontramos pedras de toque que nos ajudam a lembrar o que o nosso coração conhece mas nós nem sempre conseguimos expressar. Em um mito ou em um indivíduo, a verdadeira ressurreição recorre da vida a partir do medo e do nada.

*A oração é tradução de uma comunidade ainda enraizada à lingua de Cristo, e representaria a verdadeira oração num contexto histórico e linguístico, sem variações das primeiras traduções bíblicas. Recentemente foi apresentada no Jornal da Noite, BAND.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Ideologia

ARES, Caio. Transforme-se. Editora Caio, SP, 2002. p 98-99

Ideologia é um sistema fechado de idéias que impõe normas sobre como pensar, agir, sentir, falar, viver, transar, reproduzir, casar, comer, etc.
O objetivo da maioria das ideologias políticas, religiosas, partidárias e culturais é conseguir manipular a mente e a estrutura emocional dos associados, destruindo-lhes qualquer reação crítica.
Quão mais abrangentes forem as regras de conduta, maior será o papel da sombra que procura se infiltrar em todos os minutos da vida do homem comum.
O pensamento ideológico, por ser hábil em criar imagens poderosas e perfeitas, seduz o incauto com promessas que na verdade jamais serão cumpridas, pois são destituídas de qualquer fundamento prático.
O nazismo é um bom exemplo do quanto uma ideologia inspirada e bem construída consegue hipnotizar, manipular, alienar, massificar, desumanizar e conduzir às cegas um grupo de qualquer tamanho.
A priori, a função deste tipo de inteligência, que une os homens em torno de um ideal "fantástico", é formatar as relações dentro de um enredo de cartas marcadas, onde a finalidade real nem sempre é revelada. Nesta dinâmica, é fácil perceber porque o indivíduo não tem suas necessidades de ciração e expressão individual incentivados.
Na ideoilogia, o que realmente importa é a formação de um grupo amorfo que possa ser moldado e mobilizado segundo os interesses da organização. Por mais que o homem se ache inteligente e racional, cair nas ilusões alucinadas das ideologias é mais fácil do que ele pensa.
Analise o exemplo a seguir sobre uma ideologia religiosa fictícia:
IDÉIA: livros sagrados que caíram de Júpiter e que vão salvar os homens.
POSTURA "RECOMENDADA": ser humilde, servil e não fazer perguntas.
RELAÇÕES INTERPESSOAIS: amem a todos, desde que se convertam aos livros. Se não...
MISSÃO INDIVIDUAL: converter todos.
CUIDADO: a existência do mal.
SOLUÇÃO: os livros são o bem. Toda Verdade está neles. O que não está neles, não está em lugar algum. Ler apenas os livros. O conhecimento diferenciado é pecado, é fruto proibido.
MEDO: ser dominado pelo mal.
REALIZAÇÃO MÁXIMA: seguir os livros até o final da vida, sem nunca ter saído do caminho. Só eles são a verdade, o resto é ilusão. A felicidade não está no mundo ou nas coisas do mundo. Está nele e em Júpiter.
VIRTUDE: ser pobre e feliz dando os bens para aqueles que cuidam da preservação dos livros (lógica: em Júpiter não são necessários os bens terrenos).
EXEMPLO PESSOAL MÁXIMO: estar pronto a morrer pelos livros se for preciso, nada é mais importante na vida que eles.
Entendeu leitor?
É a alienação total do mundo. E vivas à insegurança e ao medo em relação a tudo e todos.

domingo, 10 de junho de 2007

O que realmente diz a Biblia sobre a homossexualidade

Hoje lí algo lindo e um tanto oco num cartaz na Parada Gay: Gálatas 3:28
"Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus."

O que lí dizia, em outra tradução ou percepção (citando este versículo), algo como "não há branco ou negro, não há homem ou mulher, somos todos iguais".

Pois bem, é uma expressão autêntica da mesma forma. Nada contra. Contudo proponho observarmos o contexto. O versículo se enquadra em uma discussão sobre a lei e sua validade, sob um preceito eclesiático, no capítulo 3 desta obra. Em resumo, não se enquadra à questão da homossexualidade, e sim sobre a evidência e benefício da fé para um povo numa determinada época.

Esse equívoco não se dá por escolaridade ou condição financeira. Está amalgamado a uma onda de fatores, mas sobretudo acontece por uma malévola modéstia social.
Explico.

Uma vez li um livro do Padre Daniel A. Helminiak, cujo título é o deste post. Marketing à parte, fiquei fascinado por suas teses, mas estuPefato ao ler sua bibliografia. Até então desconhecia que tantas pessoas já tinham tratado de elucidar tal questão, antes do Pe. Daniel.

Imagine, um século em que almejava estar mais próximo do estilo de vida dos Jetsons, quer ter a bíblia como argumento para "proibir" a homossexualidade... e desde 1950 já tinha gente tentando dizer que isto não faz o menor sentido: Sherwin Bailey, John Boswell, Willian Countryman e outros que também pesquisei um pouco. Sem falar de Freud, com sua interessante nova visão sobre a perversão.

Bárbaro não é?! Acreditamos que o mundo sempre foi menos moderno ou hospitaleiro antes de nossa época, mas estamos apenas vislumbrados.

Falarei um pouco deste novo mundo que Pe. Daniel me mostrou, com apoio de uma tradução seríssima da Bíblia dedicada ao Rei James da Inglaterra, considerada padrão.

Em Gênesis 19:1-11 temos a história de Sodoma. Há relevantes momentos:
"Onde estão os homens que entraram esta noite em tua casa? Conduze-o a nós para que os conheçamos" (...) "Suplico-vos , meus irmãos, que não cometais este crime." Ouvi: tenho duas filhas que são ainda virgens, eu vo-las trarei (...) "Retira-te daí! - e acrecentaram: Eis um indivíduo que não passa de um estrangeiro, e se arvora em juiz! Verás como te havemos de tratar pior do que a eles. E empurrando Lot com violência, avançaram para quebrar a porta. (...) mas os dois anjos viajantes (...) feriram de cegueira os homens que estavam fora (...)".

Na Bíblia, "conhecer" às vezes significa "manter relações sexuais com". Esta é pedra fundamental para associar o pecado de Sodoma ao ato homogenital masculino. Para começar, o verbo "conhecer" aparece 943 vezes no Testamento hebreu, e em somente 10 a palavra tem sentido sexual,, incluindo a menção acima.

Acontece que não há maneira de certificar totalmente se o texto se refere aos atos homogenitais ou não. A única certeza parece ser que ESTE TEXTO DIZ RESPEITO AO ABUSO, E NÃO SIMPLESMENTE AO SEXO.

Forçar um homem a fazer sexo era uma forma de humilhá-lo. A idéia era de insultar os homens, tratando-os como mulheres, consideradas naturalmente inferiores até então, simples peças a serviço do homem. Daí, curiosamente, parametrizamos uma questão importante. Costumava ser mais aceitável ser o parceiro ativo, mas ser o receptivo significava desonra e degradação, uma clara objeção ao efeminado, e não ao fato de fazer sexo com outro homem.
Aliás, costumAVA ou costuma (tempo presente) ser assim? Boa pergunta, óbvia resposta.

Bom, voltando, uma regra básica da sociedade de Lot era oferecer hospitalidade aos viajantes. Esta mesma regra faz parte das culturas emitas e árabes. Lot recusou-se a expor seus convidados ao abuso pelos homens de Sodoma. Fazê-lo significaria, antes de tudo, violar a lei da sagrada hospitalidade.
Sim, isto é análise histórico-crítica. Mas ainda estamos acordando...

Ezequiel 16:48-49
"O crime da tua irmã Sodoma era este: opulência, glutoneria, indolência, ociosidade, eis como vivia ela (...)"
Sabedoria 19:13
"Porque tinham usado de uma inospitalidade mais detestável; pois se estes não tinham acolhido estrangeiros desconhecidos, os Egícios tinham reduzido à escravidão hóspedes benfeitores."
Mateus 10:5-15
"(...) Se não vos receberem e não ouvirem vossas palavras (...) em verdade vos digo: no dia do juízo haverá mais indulgência com Sodoma e Gomorra que com aquela cidade."

Pe. Helminiak elucida que outras passagens menos diretas a Sodoma listam injustiça, parcialidade, adultério, mentiras e encorajamento dos pecadores. Sendo o adultério o único pecado sexual da lista, então tido como utilização indevida da propriedade (esposa) de outro homem.

Em Levítico 18:22, temos a afirmação:
"Não te deitarás com um homem, como se fosse mulher: isso é uma abominação."
O Levítico condena à pena de morte também o adultério, incesto e bestialidade. Opor-se aos próprios pais significava ameaçar a ordem social. Em nossos termos este comportamento equivaleria à insurreição ou traição, puníveis com a morte. Na Israel antiga, mais do que uma ofensa pessoal, envolvia prejuízo financeiro: o homem havia pago ao sogro um dote por ela, e a mulher era importante para a expansão da família, para o enriquecimento de sua propriedade (procriação).

"Amaldiçoar" os pais e cometer adultério tinham significados diferentes da nossa cultura atual.

Praticar atos homogenitais significava ser como os gentios, era o equivalente a identificar-se com os não judeus. Isto quer dizer que a prática de atos homogenitais representava uma traição à religião judaica (Seção do Código Sagrado). Como povo "escolhido", não poderia estar associado a atividades pagãs, à idolatria e identidade gentia. Algo como os católicos que tinham de se identificar como católicos não comendo carne às sextas-feiras (antiga lei da Igreja), ou então cometeriam pecado MORTAL. Pois é.
Evidentemente, "abominável" aqui, é um mero sinônimo de impuro, como violação de regras de pureza que governavam a sociedade israelita e faziam o povo judeu diferenciado dos outros povos, possivelmente por princípios sanitários.

Enfim, o tabu social era transformado em pecado. E ainda é. Ora, sexo continua sujo ou impuro até para muitos heterossexuais.

A atitude da maioria das pessoas acerca da homossexualidade é ainda sentirem-se esquisitas a respeito, e afirmarem por reação que é errado.

Para os literais, basta ler algum livro destes autores iluminados que mencionei. Todos contém correlações entre palavras gregas, hebraicas e traduções adaptadas ou deturpadas. Neste caso, há uma análise belíssima para as palavras toevah e zimah, concluindo que a abominação é referida somente ao contexto do ritual violado, e o que a questão da "pureza" significava para o homem da época, como no caso da lepra, que somente quando se espalhava ao corpo inteiro (pasmem!) garantiam que uma pessoa não era mais impura (por tornar BRANCO o corpo inteiro).

E o mais interessante mesmo, é o seguinte. Certo, existem menções que podem ser interpretadas mais ou menos fanaticamente contra os gays. Mas... e contra as lésbicas?

Somente em Romanos 1:26 há uma menção ao que PODE ser o sexo entre mulheres, com sua seguinte afirmação de "anti-naturalidade". Mas não se pode afirmar que se refira certamente ao conceito de "relação" do texto como "sexo" entre mulheres.

E aqui vai a pergunta com a qual encerro com satisfação este post:

MAS QUE SENTIDO FARIA, SE APENAS AS ATIVIDADES MASCULINAS, E NÃO FEMININAS, FOSSEM CONDENADAS? QUE DEUS AÉTICO SERIA ESTE?

Não há sentido. Concordo plenamente.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

O Preconceito Eclesiástico

O fanatismo tem sua força e afirma ter Deus a seu lado. O preconceito e a ojeriza absoluta com relação aos homossexuais ainda são tolerados em nossa sociedade.
Inóspito.

A religião impensada deturpa a questão da ética sexual. Não poderiamos pressupor que a bíblia forneceria a última palavra sobre isso, esta não é sua função. A medicina, a filosofia, a psicologia e a sociologia explicam hoje melhor do que naquela época.

Assim foi com o Novo Testatamento, que renovou o primeiro. E também foi com o conceito planetário, desde que a Terra passou a girar em torno do Sol para o entendimento público. Galileu que o diga (mesmo morto).

Se a Igreja não muda, tem ao menos obrigação de moldar-se. Contudo é morosa para o que lhe convém como instituição social, assim como qualquer instituição defende seu interesse. Sua fé popular é ambígua. Ao mesmo tempo em que não permite, faz vista grossa, mas até algum limite que nunca sabemos onde está. Fica-se à mercê de um humor que não nos pertence e com o qual nem sempre queiramos identificar-nos.

A morosidade vale para desculpar omissões, manter o celibato e uma certa autoridade para arbitrar o que é apropriado. Quando você tem um Estado fraco como o brasileiro então... vixe santa! Deus entra como cooperado e resolve todo o problema que os impostos não puderam prover ao doente e ao injustiçado.
A questão não é indagar a existência de Deus, não neste post. Trata-se de entender que esta força habita em nós, e não se sobrepõe à nossa personalidade, à nossa humanidade e arbítrio. Isto está claro no literário Gênesis. Está em cada ato da criação a afirmação "e viu Deus que era bom", muito diferente do gênero "apossou-se Deus de sua criação", como alguns insistem em acreditar. Deus não criou nada para si, mas sua criação foi expelida d'Ele mesmo.

Enquanto ambiciona perfeição, e em detrimento da empáfia, o ser humano se esquece de importantes coisas ditas há milênios, que poriam fim a qualquer discussão inapropriada. Não existem provas de que a orientação possa ser mudada, nem qualquer argumento verossímil de que tenha que ser.

Deixemos, pois, de nos julgar uns aos outros; antes cuidai em não por um tropeço diante do vosso irmão ou dar-lhe ocasião de queda. Sei, estou convencido no Senhor Jesus, de que nenhuma coisa é impura em si mesma; somente é para quem a considera impura.
Romanos, 14:13-14

A sexualidade é parte integrante da capacidade de amar. Precisar ter medo dos próprios sentimentos sexuais significa restringir o amor. Significa ter medo de nosso profundo e autêntico eu. E qualquer crescimento interior é atrofiado quando se reprime afeto.

Escolher entre sexualidade e Deus, entre religião e integridade, é uma opção muito dura.

Todavia, Deus de algum modo está por trás do fato de alguns sermos gays. somos pessoas defeitosas? Há quem creia. Mas nesse caso, Deus deve ser mau ou deve estar pregando uma peça cruel - o que não é plausível sob a crença de que Deus não erra. Deve haver uma outra resposta.

A interpretação literal, minimiza o sentido figurado e a expressão literária. A regra aqui é a de que um texto tem sua significação no presente por quem a lê, assim entendendo um texto unicamente conforme o que ele diz. Claro que não podemos deixar de inferir entendimentos tais quais os temos, mas também não podemos utilizá-los como definidores de algo que não foi escrito em nossa cultura, época e contexto.

Que dizer da energia nuclear, bebês de proveta?

A história da criação em sete dias é apenas uma maneira de transmitir a seguinte idéia: Deus criou o Universo com sabedoria, esmero e ordem. E não há nenhum conflito com a ciência aqui.

Mas o fundamemtalismo obscurece o que Deus determina, em troca de que as pessoas se sintam mais seguras e confortáveis, decretando impressões marcantes e seletivas.

Curioso, entretanto, que certos pregadores não sejam literais determinados textos, enquanto listam uma variedade que acusa os homossexuais.

Vós, servos, sujeitai-vos com todo o temor aos senhores, não somente aos bons e humanos, mas também aos maus.
1 Pedro 2:18
favorável à escravidão

Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti (...) E se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a pra longe de ti (...)
Mateus 5:29-30
cortar partes do corpo como remédio para a tentação

Também foi dito: qualquer que deixar sua mulher, dê-lhe carta de desquite. Eu, porém, vos digo que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de prostituição, faz com que ela cometa adultério, e aualquer que casar com a repudiada comete adultério.
Mateus 5:32-33
condenação ao divórcio

Ah tá... são simbologias?
Hum... então em certos momentos a interpretação não é literal, certo?

Ahá!

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Parada Gay e Populismo Cristão

Podemos interpretar mais corajosamente os textos bíblicos que hoje são usados para condenar, oprimir e marginalizar os filhos de Deus que são gays e lésbicas. As palavras bíblicas ATUALMENTE DISTORCIDAS e culturalmente condicionadas em favor de uma nova força do Senhor, só agradam a uma Igreja que ainda desdenha a humanização, presa em seu metafórico conceito de fé para o povo.
A Igreja deveria conscientizar-se de que não pode afirmar ser o Corpo de Cristo se deixar de aceitar todos aqueles que seriam bem-vindos pelo Cristo.


Teremos muitos preconceitos por contestar, principalmente os daqueles que afirmam falar por Deus.

Claro, priorizar o assunto tornando-o mais um conflito existencial gay, mais do que sado-masoquismo, é sobretudo uma FANTASIA. Esta Igreja que nos aponta o dedo em riste, não é a Igreja que encontramos em nossa comunidade, obrigada a lidar com nossa forte presença. Hipocrisia ou não, nada é tão genericamente rude na prática, embora careça de incontáveis reformas.
Ademais, esta hipocrisia de que podemos nos sentir exclusivas vítimas, é a mesma dispensada aos heterossexuais que tem a camisinha, anticoncepcional e divórcio proibidos por um dogma que reduz a “criação” do homem a uma alienada subserviência. É ainda genitora do preconceito à Teologia da Libertação, e da depressiva manutenção da idéia de um Deus separado do homem pelo mito do Pecado Original.

Poucos sabem, mas o Cristianismo em nada começou como o temos hoje. Na época, os primeiros cristãos eram atormentados por seus opressores judaicos e pagãos, sem perspectiva de futuro. Uma mensagem que pudesse projetar na fantasia tudo que a realidade lhes negava, teve um fascínio extremo. Colocando a fantasia no lugar da realidade, a mensagem cristã satisfazia as aspirações de esperança e vingança, e embora deixasse de aliviar a fome, proporcionava satisfação para os oprimidos. Essas pessoas odiavam intensamente as autoridades que lhes impunham um poder paternal, desejavam governar por si. Embora conscientemente não ousassem matar o Deus paternal, a hostilidade inconsciente ao pai divino manifestou-se na fantasia do Cristo, colocado ao lado de Deus como co-regente, significando que Deus não mais seria o único e intangível.

Mais tarde, uma idéia se popularizaria: a de que Jesus sempre foi um Deus. Esta idéia já trataria de manipular uma evolução, a eliminação dos desejos hostis para com Deus. Milhares de homens antes dele haviam sido torturados, crucificados e humilhados. Se viram nesse homem crucificado um ser elevado á deus, é porque, no inconsciente, consideram-se o deus crucificado. É como se esse povo sofrido também tivesse sofrido a morte na cruz e expiavam dessa forma seus desejos de eliminação do pai. Pela morte, Jesus expiava a culpa de todos, e os primeiros cristãos precisavam muito dessa expiação.

A identificação com Jesus implantava a possibilidade de uma organização comunal sem autoridades, estatutos e burocracia, uma manifestação de tendências revolucionárias com satisfação imediata. Isto porque num espaço de tempo extraordinariamente curto, a cristandade se tornou religião das massas pagãs oprimidas. Estes pagãos, receberam a propaganda cristã com ajuda das atitudes políticas de Paulo, o primeiro importante líder cristão NÃO ORIUNDO DE CLASSES INFERIORES.

Uma interessante expressão política da economia romana em declínio com uma monarquia absoluta, foi o palco para que o sistema social procurasse ser mais tolerado pelos inferiores, o que facilitou a incorporação do Cristianismo e Igreja ao Império ainda interessado na larga classe de sofredores fantasiosos. E originou um conceito decisivo para a tramóia: a salvação já estava preparada para o homem, e o homem para a salvação na vida do Cristo. Os cristãos já não se voltavam para o futuro ou a história, mas sim para trás, uma vez que o aparecimento de Jesus já representava o distractivo milagre. O interesse cosmológico sobreposto ao interesse histórico diminuiu as exigências éticas.

No século II, a Igreja se deparava com uma crescente reaproximação dos cristãos com o Estado, o que intimamente se ligava à renúncia da rigorosa prática santificadora desta mesma Igreja centrada na contenção e “espairecimento” das massas. E eis mais uma reviravolta: mesmo com perseguições ocasionais, a Igreja inicia sua reconciliação com o Estado.

Muito mais aconteceu desde então, do Concílio de Nicéia até a entrada de Maria para perspectiva da fé, como meio de associá-la à bem-aventurança da Igreja.

Estratagemas e estratagemas, até a indefinição de hoje. Se você leu até aqui, não deixe de refletir sobre isso. Ainda mais quando alguém esquecer que a Igreja não é santa, e sim mais uma pobre pecadora. Destrato aos leprosos, inquisição, omissão no nazismo, no período racista americano... Não esqueço de listar algumas das razões, não para retrucar algum idiota que me ataque com meras palavras, mas para me defender do pior tipo de cegueira: a que obscuriza minhas próprias potencialidades sem devida menção à história e sua crítica.

Este será o primeiro texto de trÊs que pretendo postar aqui falando a este respeito (abordarei trechos bíblicos e posições sociais), em virtude da 11ª Parada Gay em São Paulo. Embora a Parada Gay ainda não se firme, na minha opinião, como suporte real de luta por direitos inalienáveis, também não vejo com bons olhos as acirradas críticas.


Expiar o mundo gay não é uma solução plausível. Esperar que a representatividade gay se fizesse mais “perfeita” para receber APROVAÇÃO, seria conivência com um ardiloso JOGO DA SOCIEDADE, esta enigmática dama que ainda não consegue se definir nem dama, nem puta.
Intelectualizar o movimento como se vê na Europa ou nos EUA é também retroceder e despersonalizar, pois pasmem, determinadas questões por lá são muito mais complexas que as do Brasil, para suas respectivas comunidades gays.

A Parada Gay em SP, portanto, é autêntica e irremediavelmente valorosa como meio de expressão, da maneira como é.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

A outra face do Mickey


FROMM, Erick. O medo à Liberdade. Zahar Editores, SP, 1965, pgs 116-118.

"Até que ponto uma pessoa comum compartilha do mesmo sentimento de medo e insignificância denunciado pela popularidade dos desenhos do Mickey?
Neles, o tema exclusivo - em múltiplas variações - é sempre este: algo pequeno é perseguido e ameaçado esmagadoramente mais forte, que quer matar ou engolir o pequeno; este corre e acaba escapando ou até mesmo levando a melhor sobre o adversário.
Como ocorre, o espectador vive todos os seus temores e no fim obtém a sensação confortadora de que, a despeito de tudo, será salvo e até dominará o mais forte. Sem embargo, esta é a parte expressiva e triste do "final feliz" - sua salvação depende sobretudo de sua capacidade para fugir e dos acidentes imprevistos que impossibilitem ao monstro agarrá-lo.

A posição em que se encontra o indivíduo de nossa época já havia sido prognosticada por pensadores visionários do século XIX.
Nietzsche visualiza o niilismo que se aproxima, e que deveria manifestar-se ao nazismo, e pinta o retrato de um super-homem como a negação do indivíduo insignificante e desorientado que ele via na realidade.
...
O sentimento de solidão e impotência foi lindamente manifestado na seguinte passagem de Julian Green: 'Eu sabia que pouco valíamos em comparação com o universo, sabia que nada éramos; porém, ser tão incomensuravelmente nada parece, de algum modo, ao mesmo acabrunhar e tranquilizar. Esses números, essas dimensões que escapam à compreensão humana, são totalmente desalentadores. Haverá alguma coisa, afinal, a que nos podemos agarrar? E meio ao caos de ilusões em que nos achamos mergulhados, só há uma coisa de verdadeiro - que é o amor. Tudo o mais é nada, um vácuo completo. Espiamos para um imenso abismo escuro. E sentimos medo'".

Lindos comentários, tudo dissertado à partir da discussão acerca da ambiguidade da liberdade. Para não tornar isto ainda mais estranhamente enfadonho, apesar de sua veemente pertinência, podemos finalizar ainda com Fromm, mesma obra, pgs 218-220:

"SÓ HÁ UM SENTIDO PARA A VIDA: O PRÓPRIO ATO DE VIVER. Os homens nascem iguais, porém também nascem diferentes.
...
A liberdade positiva também dá a entender que não existe poder superior à este eu individual ímpar, que o homem é o centro e a finalidade de sua vida (...)
Dizer que um homem não deve submeter-se a nada superior a si mesmo não contesta a dignidade dos ideiais: pelo contrário, é a mais vigorosa afirmação de ideais(...) desde que reconhecida a diferença entre autenticidade e ficção".

PS: Eu ainda vou pra Disney, assim que tiver grana... Fromm que me desculpe por esta, mas...

terça-feira, 5 de junho de 2007

A arte do amor para a fé

O homem só pode conhecer a negação, nunca a posição da realidade última. "Embora o homem não possa saber o que Deus é, mesmo assim ele pode estar sempre bem cônscio do que Deus não é... Assim, satisfeita com nada, a mente clama pelo mais elevado de todos os bens (...)
O divino é uma negação das negações, um desmentido dos desmentidos... Toda a criatura contêm uma negação: uma nega o que é a outra".
ECKHART, Meister. Guia dos Perplexos. Traduzido por R. B. Blakney, Harper & Brothers, New York, 1941.

Deus é uma idéia, Deus é um pensamento. Como algo que me transcende, e se me transcende, é uma idéia por sua propria natureza transcedental. Sim, idéias são "sentidas", mas isto é um outro papo.

E se Deus consiste no que transcende, ele está entre a categoria do ser e não ser. E se me transcende (sem querer ser repetitivo), posso dizer apenas o que ele não é.

O pensamento só nos leva ao conhecimento da última resposta que não pode ser dada. O mundo do pensamento permanece prêsa do paradoxo. A única forma do Universo ser apreendido em sua "forma final", está na experiência particular da unicidade, seja lá o sem-fim que escolhermos para tal.

E a harmonia consiste na posição conflitante de que é feita, afinal não há explicação no universo qua não contenha em si mesma, uma explicação contrária.

Lamentavelmente ou felizmente, apenas algumas nos convém. O microcosmo se une ao macrocosmo, mas esta experimentação não te retorna ao mesmo microcosmo com que iniciou sua jornada.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Isto não é um cachimbo

:: René Magritte - Ceci n'est pas une pipe ou "Isto não é um cachimbo" (1928)

Isto não é um cachimbo. E não é mesmo. É antes a representação de um cachimbo, um signo. E dizem vocês: «Não deixa de ser um cachimbo».

Magritte responde: «Os meus quadros são imagens visíveis que contêm nada; elas evocam mistério e quando alguém vê um dos meus quadros, pergunta-se simplesmente: o que é que aquilo quer dizer? Não quer dizer nada, porque o mistério significa nada, é desconhecido». A imagem não pode afirmar a inexistência da coisa representada, mesmo brincando com esta impossibilidade ao pintar um cachimbo e sob este escrever "isto não é um cachimbo". Para afirmar uma negação, precisamos usar palavras, ou recorrer ao conceito de percepção do outro, ainda norteado pela palavra.

A sensação de contradição nos é passada pela frase que nos alerta não ser um cachimbo uma mera imagem enganosa.

Profa. Rita, esta é dedicada pra você.

domingo, 3 de junho de 2007

E comincio a scrivere!

É só o começo. Senti uma repentina vontade de exprimir um antigo interesse. Catalogar um pouco dos meus pensamentos, conselhos, devaneios (e sobretudo devaneios). Mais tarde poderei revê-los e repensá-los novamente em outro axioma.

Vou pirar mesmo na batatinha por aqui.
risos...
Por enquanto, nem pretendo divulgar, estou feliz por reforçar o que penso a mim mesmo.

"O que fazemos durante as horas de trabalho determina o que temos, o que fazemos nas horas de lazer determina o que somos". Charles Schulz

Espero curtir esta experiência... uhhhh... será que não perco minha paciência antes?

Espero que não.

"Jung teve uma paciente que o procurou porque se sentia só no mundo, no meio dos rochedos, e no desenho que fez, a pedido dele, para mostrar como se sentia, ela estava na praia de um mar lúgubre, presa entre os rochedos, da cintura para baixo. O vento soprava, seus cabelos balançavam; todo O ouro, toda a alegria de viver estava trancada, longe dela, nos rochedos. O desenho que ela fez em seguida, porém, acompanhava algo que ele lhe dissera. Um clarão de relâmpago atinge os rochedos e um disco dourado começa a se erguer dali. Não há mais ouro trancado dentro dos rochedos. Agora há pedaços de ouro na superfície. No curso das entrevistas seguintes, esses pedaços de ouro foram identificados. Eram os amigos dela. Ela não estava só. Ela tinha se trancado num quarto e numa vida pequenos, embora tivesse amigos – mas só se inteirou disso após haver matado o seu dragão". Joseph Campbell