sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Os Idiotas Confessos

Antigamente, o idiota era o idiota. Nenhum ser tão sem mistério e repito: — tão cristalino. O sujeito o identificava, a olho nu, no meio de milhões. E mais: — o primeiro a identificar-se como tal era o próprio idiota. Não sei se me entendem. Pois o idiota era o primeiro a saber-se idiota. Não tinha nenhuma ilusão.

E uma das cenas mais fortes que vi, em toda a minha infância, foi a de uma autoflagelação. Um vizinho berrava, atirando rútilas patadas: — “Eu sou um quadrúpede!”. Nenhuma objeção. E, então, insistia, heróico: — “Sou um quadrúpede de 28 patas!”. Não precisara beber para essa extroversão triunfal. Era um límpido, translúcido idiota.

E o imbecil como tal se comportava. Nascia numa família também de imbecis. Nem os avós, nem os pais, nem os tios, eram piores ou melhores. E, como todos eram idiotas, ninguém pensava. Tinha-se como certo que só uma pequena e seletíssima elite podia pensar. A vida política estava reservada aos “melhores”. Só os “melhores”, repito, só os “melhores” ousavam o gesto político, o ato político, o pensamento político, a decisão política, o crime político.

Por saber-se idiota, o sujeito babava na gravata de humildade. Na rua, deslizava, rente à parede, envergonhado da própria inépcia e da própria burrice. Não passava do quarto ano primário. E quando cruzava com um dos “melhores”, só faltava lamber-lhe as botas como uma cadelinha amestrada. Nunca, nunca o idiota ousaria ler, aprender, estudar, além de limites ferozes. No romance, ia até ao Maria, a desgraçada.

Vejam bem: — o imbecil não se envergonhava de o ser. Havia plena acomodação entre ele e sua insignificância. E admitia que só os “melhores” podem pensar, agir, decidir. Pois bem. O mundo foi assim, até outro dia. Há coisa de três ou quatro anos, uma telefonista aposentada me dizia: — “Eu não tenho o intelectual muito desenvolvido”. Não era queixa, era uma constatação. Santa senhora! Foi talvez a última idiota confessa do nosso tempo.

De repente, os idiotas descobriram que são em maior número. Sempre foram em maior número e não percebiam o óbvio ululante. E mais descobriram: — a vergonhosa inferioridade numérica dos “melhores”. Para um “gênio”, 800 mil, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de cretinos. E, certo dia, um idiota resolveu testar o poder numérico: — trepou num caixote e fez um discurso. Logo se improvisou uma multidão. O orador teve a solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.

Se o orador fosse Cristo, ou Buda, ou Maomé, não teria a audiência de um vira-lata, de um gato vadio. Teríamos de ser cada um de nós um pequeno Cristo, um pequeno Buda, um pequeno Maomé. Outrora, os imbecis faziam platéia para os “superiores”. Hoje, não. Hoje, só há platéia para o idiota. É preciso ser idiota indubitável para se ter emprego, salários, atuação, influência, amantes, carros, jóias etc. etc.

Quanto aos “melhores”, ou mudam, e imitam os cretinos, ou não sobrevivem. O inglês Wells, que tinha, em todos os seus escritos, uma pose profética, só não previu a “invasão dos idiotas”. E, de fato, eles explodem por toda parte: são professores, sociólogos, poetas, magistrados, cineastas, industriais. O dinheiro, a fé, a ciência, as artes, a tecnologia, a moral, tudo, tudo está nas mãos dos patetas.

E, então, os valores da vida começaram a apodrecer. Sim, estão apodrecendo nas nossas barbas espantadíssimas.

Esta adaptação do Nelson Rodrigues é uma homenagem a uma idiotice, a um idiota confesso que conhecí.

O pleno idiota é aquele que projeta seu caráter imundo no próximo, como se, narcisicamente, ele de fato o refletisse. Ideal seria ver seu próprio rosto refletido na água de um pântano, seria uma maneira inevitável de lidar com sua verdadeira imagem, ao invés de procurá-la nos demais.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Confiar na Estabilização Mental

Já fizeste isso comigo muitas vezes no passado
E, como resultado, sofrí por muito tempo;
Mas agora que reavivei todo o meu rancor por ti,
Estou determinado a te destruir, ó mente egoísta.
...

Quer cuide dele da maneira que faço
Quer o deixe ser ferido pelos outros.
O corpo, ele próprio, não desenvolve nem apego nem raiva;
Então, porque me sinto tão apegado a ele?

Já que o corpo, ele próprio, não conhece
Raiva quando insultado
Nem apego quando elogiado,
Porque enfrento tantos transtornos em seu nome?

"Mas quero cuidar desse corpo
Porque ele é muito benéfico para mim".
Então, porque não apreciar todos os seres vivos,
Uma vez que eles são muito mais benéficos para nós?

Portanto, sem nenhum apego,
Vou abrir mão do meu corpo para o benefício de todos;
Todavia, apesar do corpo ter muitos defeitos,
Cuidarei dele enquanto trabalho para os outros.

Vou por um fim a todas as criancices
E seguir os passos dos sábios Bodissatvas.
Lembrando-me das instruções sobre conscienciosidade,
Vou me afastar do sono, da obtusidade mental e de outros estados afins.

Como os compassivos filhos e filhas do Conquistador Buda,
Vou dedicar-me com paciência a tudo o que deve ser feito.
Se não aplicar esforço constante ao longo do dia e da noite,
Quando minha desgraça chegará ao fim?

Portanto, para dissipar ambas as obstruções
Vou afastar minha mente de todas as concepções distrativas
E posicioná-la em constante equilíbrio medidativo,
No perfeito objeto de meditação, a visão correta da vacuidade.

Guia do Estilo de Vida do Bodissatva.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Incliner Sans Necessiter

Quem fale e reflita acerca de uma coisa má que haja praticado, está pensando na baixeza perpetrada, e quem pense fica preso aí - com a alma inteira a pessoa fica presa completamente àquilo em que pensa, e por isso fica presa à baixeza. E por certo não será capaz de mudar, pois seu espírito endurecerá e seu coração apoderecerá, e além disso um ânimo triste pode apoderar-se dela.

O que faria você? Remexa na imundície deste jeito e daquele, e ela continua a ser imundície. Ter pecado ou não ter pecado - de que nos adianta isso no céu? Durante o tempo em que estou matutando sobre isso eu poderia estar enfiando pérolas para alegria do céu. Por isso é que está escrito: "Afaste-se do mal e faça o bem" - afaste-se completamente do mal, não fique ruminando dessa maneira, e pratique o bem. Então compense isso agindo bem.

Time and Eternity, N.N.Glatzer.


Isto está dentro do mesmo espírito que a palavra chatah do antigo Testamento, comumente traduzida por pecado, mas de fato significa "perder, ou errar (o caminho)"; falta-lhe a qualidade de condenação que as palavras "pecado" e "pecador" tem. Analogamente, a palavra hebraica para arrependido é teschubah, significando "voltar" (para Deus, para si mesmo, para o caminho certo), e a ela também falta a implicação de autocondenação. Assim, o Talmude emprega a expressão "o mestre da volta" ("o pecador arrependido") e diz dele que paira acima até dos que nunca pecaram.

domingo, 5 de agosto de 2007

Nós e O Absoluto

Pelágio (350-425) era um monge bretão, dotado, segundo consta, de muita força de vontade e profundo senso do dever, eloqüente e autodidata em teologia. Quando chegou em Roma, começou a criticar a estupidez e hipocrisia de muitos cristãos.

No século V, Pelágio havia debatido ferozmente com Agostinho sobre este assunto. Agostinho mantinha que o pecado original de Adão foi herdado por toda a humanidade e que, mesmo que o homem caído retenha a habilidade para escolher, ele está escravizado ao pecado e pecará.
Por outro lado, Pelágio insistia que o pecado original afetara apenas a Adão, e que se Deus exige das pessoas que vivam vidas perfeitas, Ele também dá a competência ou habilidade moral para que elas possam fazer assim. Ele reivindicou mais adiante que a graça divina era desnecessária para salvação, embora facilitasse a obediência.

Tendo como findamentos a absoluta liberdade e auto-suficiência do homem, Pelágio redecora a problemática da justiça infinita de Deus: Deus é justo e não pode impor-nos algo que supere nossas forças, e não pode dar a alguém um auxílio maior que a outrem.

Agostinho teve sucesso refutando Pelágio, mas o pelagianismo não morreu, mesmo considerado heresia por muitos concílios católicos, teóricos e burocráticos da fé.

Com irresistível charme, várias formas de pelagianismo recorreram periodicamente através dos séculos. Lutero escreveu um livro "A Escravidão da Vontade" em resposta a uma diatribe de Erasmo, onde o mesmo defendia conceitos pelagianos. Lutero acreditava que Erasmo era "um inimigo de Deus e da religião Cristã" por causa do ensino dele sobre o pecado original. É bom notar que o Catolicismo medieval, sob a influência de Aquino, adotara um semi-pelagianismo, mesmo que na antigüidade houvesse rejeitado o pelagianismo puro. Neste sistema, acreditava-se que o homem cooperava com a graça de Deus para a salvação.

No século XVIII, uma forma nova e levemente modificada de pelagianismo, apareceu, que foi o arminianismo. Existem algumas diferenças entre as duas posições, mas ambas são sinergistas (o homem coopera para sua salvação) e mantém o mesmo conceito de fé (uma decisão puramente humana de receber a Jesus Cristo, e não como um dom misericordioso de Deus).

O Niilismo acredita a existência humana desprovida de qualquer sentido. Nesta linha, a base do problema residirá na vontade, em seu direcionamento. Se onde há vida há vontade de poder, o mesmo não pode ser dito da vontade como afirmação da vida. Há o efeito negativo, mas isto não indica, contudo, que a vida não possua seus atrativos. Para Nietzsche, o fim último do niilismo está no momento em que o homem nega os valores de Deus, deve aprender a ver-se como criador de valores e no momento em que entende que não há nada de eterno após a vida, deve aprender a ver a vida como um eterno retorno. Como no “Zaratustra”, onde o jovem pastor elimina a serpente, deve agir o homem. Deve abrir-se ao devir e ao tempo. Deve transformar a vida em uma experiência de criação e destruição. Filosoficamente espantador e ambíguo.

Ao meu ver, o niilismo não é sinônimo de um melindre sobre a postulação de Pelágio, mas muitas vezes poderá representar sua metáfora acerca de um desperdício de forças, e ainda um risco da exaltação humana, ou seu obscurantismo. Hipóteses de um encadeamento que me ocorreu agora.

Antes que eu misture demais os princípios, temos o perspicaz Hegel. Vejamos um exemplo muito célebre da dialética hegeliana. Trata-se de um episódio dialético tirado da Fenomenologia do Espírito, o do senhor e o escravo.

Dois homens lutam entre si. Um deles é pleno de coragem. Aceita arriscar sua vida no combate, mostrando assim que é um homem livre, superior à sua vida. O outro, que não ousa arriscar a vida, é vencido. O vencedor não mata o prisioneiro, ao contrário, conserva-o cuidadosamente como testemunha e espelho de sua vitória. Tal é o escravo, o "servus", aquele que, ao pé da letra, foi conservado.

a) O senhor obriga o escravo, ao passo que ele próprio goza os prazeres da vida. O senhor não cultiva seu jardim, não faz cozer seus alimentos, não acende seu fogo: ele tem o escravo para isso. O senhor não conhece mais os rigores do mundo material, uma vez que interpôs um escravo entre ele e o mundo. O senhor, porque lê o reconhecimento de sua superioridade no olhar submisso de seu escravo, é livre, ao passo que este último se vê despojado dos frutos de seu trabalho, numa situação de submissão absoluta.
b) Entretanto, essa situação vai se transformar dialeticamente porque a posição do senhor abriga uma contradição interna: o senhor só o é em função da existência do escravo, que condiciona a sua. O senhor só o é porque é reconhecido como tal pela consciência do escravo e também porque vive do trabalho desse escravo. Nesse sentido, ele é uma espécie de escravo de seu escravo.

c) De fato, o escravo, que era mais ainda o escravo da vida do que o escravo de seu senhor (foi por medo de morrer que se submeteu), vai encontrar uma nova forma de liberdade. Colocado numa situação infeliz em que só conhece provações, aprende a se afastar de todos os eventos exteriores, a libertar-se de tudo o que o oprime, desenvolvendo uma consciência pessoal. Mas, sobretudo, o escravo incessantemente ocupado com o trabalho, aprende a vencer a natureza ao utilizar as leis da matéria e recupera uma certa forma de liberdade (o domínio da natureza) por intermédio de seu trabalho. Por uma conversão dialética exemplar, o trabalho servil devolve-lhe a liberdade. Desse modo, o escravo, transformado pelas provações e pelo próprio trabalho, ensina a seu senhor a verdadeira liberdade que é o domínio de si mesmo. Assim, a liberdade estóica se apresenta a Hegel como a reconciliação entre o domínio e a servidão.

É possível porque Hegel concebe um processo racional original - o processo dialético - no qual a contradição não mais é o que deve ser evitado a qualquer preço, mas, ao contrário, se transforma no próprio motor do pensamento, ao mesmo tempo em que é o motor da história, já que esta última não é senão o Pensamento que se realiza.

É preciso compreender também que a história é um progresso. O vir-a-ser de muitas peripécias não é senão a história do Espírito universal que se desenvolve e se realiza por etapas sucessivas para atingir, no final, a plena posse, a plena consciência de si mesmo. "O absoluto, diz Hegel, só no final será o que ele é na realidade". O panteísmo de Spinoza identificava Deus com a natureza: Deus sive natura. O panteísmo hegeliano identifica Deus com a História. Deus não é o que é - ao menos só é parcial e muito provisoriamente o que atualmente é - Deus é o que se realizará na História. (Neste sentido, ainda há algo de hegeliano na filosofia de Teilhard de Chardin). Por conseguinte, a história, para Hegel, é uma odisséia do "Espírito Universal".

Muito bem, Hegel!

Se Deus é uma idéia que transcende a própria idéia e o pensamento, se é infinito algo, amor ou seja lá o que definamos em nossa ânsia pela razão Dele, este infinito é potencialmente mutável para ser infinito ou continuamente maior. Obrigado.

O relevante mesmo não é perambular entre os limites do agir e não agir, pecado e positivismo. É caminhar, saltar, ou até mesmo tropeçar. Trata-se de outro axioma.

Para quem ainda quer mais, com uma linguagem bem acessível, sugiro clicar: http://www2.uol.com.br/bibliaworld/igreja/estudos/doutr002.htm